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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Crônica 46. Opções e Sínteses - S.Squirra



Opções e sínteses

Venho descobrindo que gosto mais de lógica que imaginava. E imaginar que no Ginásio eu fugia da Matemática, apesar de adorar a Química. Mas, os anos decorridos vêm demonstrando que na razão embutida das coisas se encontra uma evidência matemática incessante. Os exemplos são férteis e vão de Darwin a Einstem, da Filosofia da Tecnologia à espiritualidade. Nesse sentido, acabo de ler um livro (Decodificando o universo, de Charles Seife) centrado nas leis da física, indo da entropia, à termodinâmica, da teoria da relatividade à física quântica. Percebo que em tudo está presente a Ciência da Informação (transmissão de dados para o crescimento de uma planta, o tamanho de nossas unhas, as batidas co coração etc.), que conforme cita o autor “explica tudo no cosmo, desde nossos cérebros até os buracos negros”. Pois é.

Pensando nas evidências científicas desse universo e comparando com o comportamento humano, elenquei elementos antagônicos num exercício contábil de opções. Não tem jeito, a gente faz escolhas o tempo todo. Veja e defina seu lado, é só se orientar:

Coluna 1                      vs.       Coluna 2
  • paz                               vs.       guerra
  • êxtase                         vs.       agonia
  • tranqüilidade                 vs.       aflição
  • liso                              vs.       rugoso
  • sereno                         vs.       agitado
  • simples                        vs.       complicado
  • amor                            vs.       ódio
  • focado                         vs.       disperso
  • real                              vs.       virtual
  • claro                            vs.       escuro
  • livre                              vs.       dependente
  • autônomo                     vs.       enquadrado
  • objetivo                        vs.       dissimulado
  • formatado                    vs.       disforme
  • ousado                        vs.       comedido
  • independente                vs.       dominado
  • honesto                        vs.       conivente 
  • assumido                     vs.       enrustido
  • coragem                       vs.       covardia
  • ousadia                        vs.       temeridade
  • liberar                           vs.       enjaular
  • equilíbrio                      vs.       conchavo
  • limpar                           vs.       esconder
  • construir                       vs.       improvisar
  • altivez                           vs.       submissão
  • avançar                        vs.       patinar
  • arejar                            vs.       obliterar
  • extravasar                    vs        amordaçar
  • alimentar                      vs.       suprimir
  • oxigenar                       vs.       ozonizar
  • brilhar                           vs.       embotar
  • valorizar                       vs.       desprezar
  • enaltecer                      vs.       desmerecer
  • coragem                      vs        medo
  • destemor                     vs        subjugado

Qual a coluna mais confortável?

(P.S.: se quiser, vamos crescer a lista)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Crônica 45. Vida vivida vs catequismo meretrício - S.Squirra

Vida vivida vs. catequismo meretrício


Esclarecimentos aos especuladores e mal informados: nunca tive a oportunidade de experimentar tutores. Muito menos babás, guias ou enfermeiras, E arremato: nunca recebi gorjetas, mesadas, que dirá heranças. Pondero que isto não é uma vantagem, porque longe de ser opção própria, desde muito jovem o caminho era tarefa a ser construída com a coragem incipiente, a segurança inexistente e a sabedoria dos inexperientes. O mundo sempre era cruelmente objetivo: se tivesse dor, curasse-se; se aparecesse o medo, amparasse-se; se adviesse a insegurança, virasse-se... Tudo assim tão simples e irrecusavelmente explícito!


Neste mar de amplas oportunidades, todos os desafios precisavam ser enfrentados isoladamente, já que a energia tinha que ser bem dosada e usada cuidadosamente, pois é difícil achar a trilha certa sem a transferência de conhecimento dos mais experientes. Quiçá achar a saída menos perigosa para os inúmeros desafios que se apresentam no caminhar tateante. Isto foi bom, pois formatou o caráter e a trajetória que hoje permitem afirmar: mentor é coisa de privilegiados, de quem teve vida protegida, de quem teve pai financeiro a vida inteira, de quem experimentou ampla solidariedade no crescimento da personalidade, na formatação das opiniões e de quem recebeu sólida orientação na construção das escolhas profissionais. E isto não é compulsório, pois outros se viraram sozinhos, na lida diária com os problemas – que requerem soluções - e inseguranças – que não perdoam os unicamente bem intencionados. Melhor assim: por nunca ter que suportar carcereiros e senhores de engenho, muito menos aceitei cabrestos. Para o bem ou mal. Que fazer?


E tem mais: nunca freqüentei boas escolas, sobretudo aquelas pagas por um provedor. Nem contei com plano de saúde patrocinado. O caminho único tinha uma só porta: ser forjado nas ruas, no labor constante, sem padrinhos, sem bolsas de estudos, sem descanso. E com uma condição apavorante: sem chance alguma de errar, pois o insucesso traria a falta do pão na mesa e ameaça à sobrevivência familiar. Sem escolhas: ou dá certo... ou dá certo! E pronto! Que frescura, menino!


Também nunca assumi a função de ouvidor, mas procurei confortar justas e equilibradas demandas. Como, um dia, minhas aflições ecoaram em ouvidos distraídos. Mas, onde estão mesmo estes santos “ouvidores”? Com o tempo descobri que a missão de ouvir desbragadamente é para os terapeutas, os padres e as vagabundas. E não me vejo ai. Mas constatei que o catequismo meretrício está repleto de escutadores empoados que condoem os temedores dos mistérios da alma, agrupados nas suas gangues. Estes têm tempo para tais investimentos. Outros suam a camisa, pois têm coisas concretas a superar, sem dengos e lamentos. À luta....


Na vida, me orientei pelas belas e confortantes palavras de minha mãe, na solidariedade e cobrança dos irmãos (que tinham seu quinhão a dar conta), em bons papos amigos e na sabedoria dos grandes autores e poetas. A construção da persona foi feita gota-a-gota, diariamente, sem trégua. Na vida vivida, constatei que no mundo das ovelhas, a autonomia pessoal incomoda, como estranha também a ousadia crítica do não compadrio inercial. Mesmo assim, incrédulas, algumas mãos se estendem ainda hoje e emitem nota promissória salgada. Sem ingenuidade: tudo tem seu preço, é pegar ou largar! Na primeira opção, a alma fica aprisionada no indestrutível selo camorrano. Na outra, o infiel, injusto e mal agradecido deverá ferver no inferno, pois advogam que não existe fidelidade limpa, meritória, só a humilhada. Alguns só enxergam adoradores, pois seus egos panorâmicos entendem somente bajulação em subjugamentos na posição libertária .... dos “joelhos no chão”. E ameaçam que escapar disto é cuspir no prato. Pois bem, é disto que estamos falando!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Crônica 44 - Informação e desentendimento - S.Squirra

Informação e desentendimento

Na era da informação digital, fala-se muito, à esmo, sem fadiga, sem fronteiras, umbilicalmente. Parece que o verdadeiro “tsunami” desta época é a comunicação digital online, que se configura como “próteses” dialogais infindáveis e incansáveis. Mas muitos não percebem que se expressam em telas que literalmente não são o mundo real, são “espelhamentos” do real. São tão somente “janelas” que através de uma moldura, onde brilham “pixels cintilantes”, permitem a conexão com outros espaços virtuais. Nestes, as formas de interação podem ser travadas com outros seres semelhantes, que operam máquinas em tempo presente ou com máquinas robotizadas que extraem informações de arquivos em bancos de dados virtuais. Quanta abstração simbólica está presente nestes contextos! Quanta anestesia...


Neste contexto e na volatilidade da comunicação panoramicamente “metralhadora”, sobra quase nada, como acontece após a convulsiva descarga dos projéteis. No intento da participação absolutamente ativa da modernidade, raramente sobrevivem sentidos em pé. E quando restam perenidades, são fragmentos com conteúdos inalcançáveis, não propagados, diluídos ... pela redundância da sobrecarga de informações!


Falam e escrevem, expressam opiniões essencialmente sobre coisas “mundanas”, voláteis, de pouca essência para a vida, pura voracidade argumentativa desfocadora que, como excessivamente “fúteis”, etéreas e díspares, distraem a mente do essencial, do verdadeiro, do puro.... Entram só para estar presente, ser “inteligente”, integrar “tribos”, projetar-se nestas e ser reconhecido no terreno movediço ..... da insegura virtualidade!


Assim, deviam entender que não é necessário participar de tudo, muito menos dar opinião sobre tudo, integrar “correntes” que outros compõem (desviando da teoria dos “rebanhos” ....) por mais importantes que elas sejam. Assim, todos participam e cada um fica na sua... na integridade física!
De fato, e por ser pesquisador do território, entendo que na era da profusão informacional é preciso escutar mais a alma, que internamente vive clamando o que dever-se-ia fazer, por onde andar, para quem dar a mão, onde aconchegar-se, sinalizando: leia mais poesias, escute mais músicas, reflita e medite mais. Todavia, para escutar o íntimo, é necessária paz interna, acalmar-se, olhar o infinito, desplugar-se das “tribos” e de seus mentores, deixar ser, deixar rolar, não participar.... viver, enfim!


Nos dias atuais, libertar-se é não participar unicamente destes cenários. É resgatar essências, olhares, silêncios, individualidades. E focar no que se tem de melhor (cujos atributos estão bem “escondidos”), onde rendemos mais (pois mantém-se as habilidades camufladas), onde está nossa identidade (no geral, não explicitada), acalmar-se....
olhando os pássaros, o semelhante;
escutando as cachoeiras, o outro;
analisando os silêncios dos olhares perdidos, próprios e dos vizinhos,
mergulhando acompanhado no azul do nascer do dia e
aconchegando-se no róseo do entardecer... com a alma gêmea.


Portanto, achar seu outro ser, recortar seu espaço conjugado, dominar os egos, entregar-se ao território da pertença real, concreta.
Enfim, perceber, dialogar e amar os próximos em carne e osso....e deixar os displays digitais para os momentos relativizados.
Simples....

sábado, 23 de outubro de 2010

Crônica 43. Farinha na salada? - S.Squirra

Farinha na salada?

Sair do país com poucos recursos, sem domínio da língua e sem bolsa de estudos é coisa para se fazer quando se é jovem e ousado e se a pessoa está insatisfeita ou descompromissada. E vamos combinar: esta junção de condições aparece só uma vez na vida. Foi o que aconteceu comigo, logo ao terminar a graduação de Comunicação Visual, na FAAP, em São Paulo. Corria o ano de 1974 e naqueles “anos de chumbo” as perspectivas no país eram sombrias (ou como dizia Chico Buarque “A coisa aqui tá preta”),, pois o AI5 acabara de ser editado anos antes e os horizontes culturais eram extremamente limitados para quem tinha sede de aventura, pluralidade, liberdade e inovação. E fosse jovem e ousado, para se aventurar por terras estranhas “sem lenço nem documento”.


Parece absurdo e irreal, mas para juntar alguns dólares, cheguei a trabalhar em três locais diferentes ao mesmo tempo, sendo que em um deles dava duro da meia noite às seis da manhã, na compensação de cheques do antigo Banespa. Sobrevivi, e depois de três anos, as condições mínimas estavam conquistadas e uma motivação íntima incontrolável transportava a alma indomável para além mares. E parti com a segurança do destemor da juventude, pois tudo que tinha cabia numa mochila, sendo que ali não estavam incluídos toalha de banho, xampu, escova de dentes, sabonete, nada destas coisas. Que dirá blusa de frio, meias, cobertor, malhas etc. A memória resgata que na bagagem se acomodavam duas ou três camisetas, uma calça rancheira, algumas camisas, coisas assim. Afinal, o lema era o instigante “Se oriente rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul”. Na partida, no Aeroporto de Congonhas (sim, de Congonhas!) os familiares desejaram toda a sorte do mundo, trazendo o conforto para o desconhecido que viria em minutos, pois também era a primeira viagem internacional que iria realizar. A primeira escala foi em Madri, onde fiquei vagueando por dois ou três dias. E parti para Paris, onde acabei residindo, apesar dos planos iniciais me direcionarem para a cultura fervilhante de Londres e por influência das letras mágicas dos Beatles.


Como não dominava o Francês, o primeiro passo foi fazer um curso rápido no Institut Catholique de Paris e outro numa instituição que ficava em frente à Igreja de Saint Germain, no coração do Quartier Latin. Decidido a estudar, um dia, descobri um curso interessante na Sorbonne, o de “Techniques des Media”, recém implantado e sob a liderança do professor e historiador Pierre Miquel, que também trabalhava na TF1, um dos mais importantes canais da televisão francesa. Passei, então, a conviver naquele espaço, tendo aprendido o idioma nas salas de aulas e nos barzinhos do entorno, com os amigos Antoine, Marie France Khunlin e Patrick Neuman. Sob condições econômicas absolutamente precárias, a saída era sempre comer nos famosos “Restôs U”, abreviação de Restaurantes Universitários, que existiam em vários lugares da cidade. Como as aulas na Sorbonne eram nas “folgas” dos profissionais da TV (das 11 às 14 e das 18 às 22h), a saída era freqüentar um Restô U específico, o de Chatelet, que não fechava durante o dia. Como funcionava direto, muitas vezes recebia s produtos não utilizados nos demais restaurantes universitários, que abriam às 11 da manhã, mas fechavam às duas e meia da tarde. O Chatelet era freqüentado por um tipo de estudante atípico, aquele que não tinha horas fixas, que varava noites, que estava enlouquecido com os estudos ou que tinha aulas em horários “estranhos”. E este era o meu caso.


Mas, por não fechar nunca, no Chatelet era comum encontrar saladas já um pouco enegrecidas, alfaces já um pouco escuras, os tomates já molinhos etc., numa clara evidência de que aquilo estava sendo “reaproveitado” de outros lugares. Também, o valor cobrado era irrisório, cerca de 2 reais de hoje, com direito a uma fruta e um pãozinho. Como precisava tirar dali o sustento alimentar básico era comum encher o prato com o máximo de ingredientes possível e, algumas vezes, na falta de opção, a saída era incluir um pouco daquelas verduras que, de fato, não eram mais tão verdes assim. Todavia, como o visual não era fortemente apetitoso e convincente, em determinado momento passei a derramar um pouco da farinha de mandioca torrada que trazia no bolso do casaco, dentro de um vidrinho portátil de whisky, esvaziado do precioso líquido. Assim, ficava mais fácil, pois a inusitada providência escondia a real condição das folhas e dava um complemento saudoso à culinária pátria, funcionando como um elemento alimentar substancioso. Mas, na mesa coletiva, várias vezes me interpelavam sobre as razões de misturar aquela farinha diferente na salada e se era comum aquilo na minha terra. Entre uma garfada e outra, a resposta era inevitavelmente: “Não caro amigo, só em emergências”... Hoje, acrescentaria “ou quando se é jovem, desapegado e com paladar não muito rigoroso”.

sábado, 16 de outubro de 2010

Crônica 42. Saúde e prosperidade! - S.Squirra

Saúde e prosperidade!

A vida socializada requer, em todos os momentos, cumprimentos variados que, de fato, são as formas mais introdutórias de viabilizar as conexões humanas. Os seres podem passar lado a lado, sem realizar atracamentos de convivência, mas ao interagir, o básico é o estabelecimento da formalidade inicial para o diálogo em qualquer direção e propósito. Por exemplo, de manhã, depois da constatação e assimilação da presença do outro, a saudação é o comum e sempre esperado “Bom dia”, o que demonstra sinal de educação nos contatos humanos, aqui e em qualquer lugar. Esta emissão inicia a conexão. Mas, para favorecer a comunicação e garantir a adesão, às vezes, a este vem acrescentado um complemento demandante da condição do interlocutor. Por exemplo nos EUA de uma direção vem: “Good morning! How are you doing today?”. Ou, se o encontro for comercial, sua variação pode ir para: “Good morning, sir. How can I help you?” Na França é comum o: “Bonjour, Messieur! Ça va? Quois voullez vous” Nos dois países, a interlocução inicial quer dizer algo como, “Bom dia, como você está hoje?” Ou ainda ”Bom dia, como posso ajudá-lo?”. O tempo transcorre e altera as expressões, quando a estas são acrescentados os períodos em que se está, tarde ou noite. Ao partir, como se fosse aplicado um cuidadoso “fechamento de portas”, finaliza-se com o “Tchau” que aqui se usa na despedida, diferentemente da Itália, onde é empregado nas saudações de chegada e de saída.

O tempo todo, o homem faz uso destes recursos de mediação para o início do diálogo, adiantando significados que favoreçam a interlocução. Por exemplo, ao solicitar algo em alguma situação, educadamente se antepõe o “Por favor..” e após o atendimento usa-se o “Muito obrigado”, que é imediatamente seguido de uma resposta formal “De nada, volte sempre!”. Estas mensagens carregam consigo alto valor de significados e formalidades que, se bem aplicados, dinamizam o intercâmbio e autorizam o prosseguimento. Ou não. Assim, todo cuidado é pouco. Atento a estes “códigos” dialógicos, sempre prestei atenção às formalidades. Às vezes, exageradamente, pois o processo é delicado e pode ser pouco eficiente. Assim, pode parecer ingenuidade mas só recentemente descobri que poderia saudar alguém dizendo “Deus te abençoe”, uma vez que aprendi que a expressão era reservada ao uso exclusivo dos pais ou dos padres. Imaginava algo como “Quem sou eu para falar em nome de Deus?”.

Mais ousados, ali e aqui os jovens cunham suas saudações próprias, que vão de um objetivo “Hi” nos EUA, ao “Oi” paulista, em sua variação de “Diz”, ou ainda “E aí?”. Uma curiosidade é o fato de ao atender ao telefone no interior paulista as pessoas dizerem “Quem?”. Como quem, se sou eu que telefono? O certo não seria dizer: “Aqui é fulano, número tal..” e depois perguntar o nome de quem telefona, com quem deseja falar, que setor pretende ter acesso? Pois é, as saudações variam, sim e muito, de região para região! Ou mesmo de país. Por exemplo, uma formalidade estrangeira que vem sendo incorporada à vida urbana no país é o constante “Irashaimasse” falado em todos os espaços japoneses em saudação que se tornou absolutamente familiar. Ainda na área dos prazeres, ao partilhar alguma bebida é muito comum desejar “Saúde” ao parceiro na degustação etílica, na esperança que o tilintar traga bons momentos a quem brinda e a quem é brindado, apesar do teor (e quantidade) do álcool a ser partilhado. De uma forma ou outra, são hábitos que datam de tempos desconhecidos mas que compõem a cultura vivencial de todos, nas suas relações sociais coletivizadas. Mas, uma saudação diferenciada que tem me confortado a alma é, ao pedir um saquê no Gotissô, meu restaurante japonês preferido em Santos, o garçom sempre desejar “Saúde e prosperidade”! Como soa bonito isto, como revigora, como anima as entranhas... o que me provoca extremo prazer e disposição para os prazeres da alimentação, aliviando as culpas pelos exageros sempre reprisados. Mas, vamos lá: “Saúde e prosperidade”.... está autorizado!

Crônica 41 . Uma princesa africana em Paris - S.Squirra

Uma princesa africana em Paris

Ela se chamava Marie e morava em Paris nos anos 1976. Nosso primeiro contato foi quando um leve toc-toc sinalizou alguém na porta do minúsculo quarto que eu ocupava no Boulevard Saint Germain, 179. Como era comum, estava estudando e já ia avançada a noite, quando o sinal ressoou no acanhado “chambre de bonne” que eu ocupava na parte mais humilde do imponente prédio. Intrigado, ao abrir deparo-me com uma figura profundamente exótica, uma alta e magérrima pessoa envolta em esfuziante vestido de seda marrom transparente, uma extremamente bonita mulher negra. No rosto absolutamente doce, olhos vivos e sorriso cativante se destacavam e lindos brincos reluziam nas orelhas bem talhadas que, com a cabeça absolutamente careca, compunham uma imagem desconcertante. Daquele inédito e intrigante conjunto chegava um perfume de alta qualidade e sedução. Na mão direita, em pose requintada, equilibrava um champagne gelado, docilmente seguro pelos seus longuíssimos e bem cuidados dedos. Na mão esquerda, mantinha delicadamente suspensos dois brilhantes e convidativos cálices de cristal. A imagem era absolutamente sedutora e onírica, quando o concreto convite chegou: “Bonne nuit. Vous m’acompanhez avec cette bouteille?” . Obviamente, fada mágica, pensei, já verbalizando o convite para entrar e se acomodar nas precárias condições ali existentes. Sem importância, pois a imaginação rodava solta e inebriava o ambiente simples que, a partir daquele instante, tornara-se mágico e envolvente.

Que elegante figura, que fala macia, que delicadeza ao segurar os copos e servir a borbulhante bebida, que fineza ao começar a se apresentar. “Sabe”, disse ela em Francês, “sempre percebo você lendo, pois meu quarto fica ali, veja” e me apontou pela estreita janela uma luz acesa do outro lado da “cour”. O champagne era excelente e acompanhou minha explicação sobre meus objetivos, origem e demais questões. Mas, o que importava não era eu, e sim saber mais daquela personagem, que mais parecia integrar as cenas de um filme retrô. “Ah, bom”, emendou ela, “moro aqui há mais de um ano, mas sou de uma tribo no centro da África, onde, um dia, aportaram vários jovens europeus que participavam de uma expedição para conhecer os aspectos profundos da vida naquela região”. Sentada com as pernas cruzadas no chão sobre o tapete, ao lado de um candelabro com luz fraca e amarela, continuou: “Eu era uma jovem e virgem princesa com 15 anos de idade que nunca tinha vindo para a cidade grande e não falava outra língua que meu idioma nativo”. Em silêncio cúmplice, pausa para acomodar as palavras e os sentimentos que inundavam o ambiente. Minha mente acelerava febrilmente e eu me permitia deliciar-me com as ricas e sedutoras imagens que ali se materializavam. “Em determinado momento, fui abordada por um belo e louríssimo jovem de olhos azuis e origem germânica, que se encantara e queria falar comigo de todo jeito”. Ao completar mais um copo, concluiu conformada: “Em menos de um mês, eu estava casada com ele e morando na Alemanha, num castelo, onde tinha muitas festas, cheio de criados e muito dinheiro”. Que história maravilhosa, que figura envolvente, que coisa confortante viver aquilo, que cheiro, que pele, que fidalguia.....

Dias depois, voltou a aparecer e me convidou para conhecer seu apartamento. Era totalmente diferente do meu, pois havia sido ricamente decorado e tinha banheiro interno, coisa raríssima naquelas condições. Apesar de apertado, os móveis, roupas e utensílios ali presentes revelavam o enorme investimento feito. De repente, disse: “Não tenho mais contato com meu marido e, daqueles momentos restou-me só isto”. E me mostrou um pesado e original revólver Colt americano que deveria ser de prata, ou metal parecido. “A pressão da família dele, as drogas e as orgias forçaram nossa separação”, disse-me olhando saudosamente o infinito. A energia do ambiente mudara e nada havia a emendar, a não ser convidar para mais um brinde, pois nova garrafa de fino champagne havia sido aberta. Depois de constatar o fim do gostoso líquido, de repente e decididamente convidou: “Vamos sair, vamos a um barzinho que conheço aqui perto”. E naquela tarde de primavera (ah! a primavera em Paris!) lá fomos pelo Boulevard Saint Germain até um aconchegante local, onde sentamos para tomar um “balon do rouge”, não sem antes chamar enormemente a atenção, pois ela era absolutamente diferente de todos e, novamente, vestia um insinuante vestido de seda (agora amarelo clarinho) e andava como uma deusa. Porte insinuante, altíssima, magérrima, careca, absolutamente negra, roupas de seda esvoaçantes e com andar altivo, impossível não parar e se deliciar. Silenciosamente, pensei: “Bem poderíamos ir ao Café de Flore, ou mesmo ao Deux Magots”, que ficavam muito perto. Cúmplices, nos deliciávamos com o frisson que ela provocava e, após vários “coups”, tranquila e gostosa conversa, retornamos, não sem causar novos olhares e expressões de delírio nas ruas. Nunca mais nos vimos, pois ela havia dito que estava prestes a retornar para sua terra.

Que figura! Que maravilhosa experiência tive com aquela princesa dos grotões da África, mas Rainha no centro do Quartier Latin, na mais fervilhante, chique e sedutora cidade do mundo civilizado. “Adieu belle e charmante Marie!”

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Crônica 40. Reminiscências - S.Squirra

Reminiscências

Amigos de longa data vêm circulando mensagens com fotos de produtos que ilustravam a vida simples de antigamente. Isto resgata o tempo corrido e atiça a memória para os bons momentos da infância e da juventude. Tentando desviar do saudosismo bucólico e melancólico, mas estimulado por meu primo João Batista Moraes, dias destes acabamos falando de coisas assemelhadas e imergimos na lembrança de algumas “peças de baú" que permearam boa parte da vida de cada um. E lembramos a venda do Tio Quinca, que este mantinha na cidade onde nasci, Borboleta, no interior de São Paulo. Ou do sítio do Tio Juca, perto de Avanhandava. Ao apontar as condições “pré-históricas” que se vivia naquela época no interior paulista, disse-lhe que amigos haviam duvidado de minha sanidade quando falei que nos meus tempos de criança a saída era “refrescar” os refrigerantes mergulhando-os nas águas mais profundas dos pequenos rios para tornar a experiência de beber aquelas melosidades algo mais saboroso. Ele se lembrava disto e pontuou que não havia cerveja à venda, pois esta requer refrigeração, dominando, na época, os líquidos “naturais”, como a pinga, o conhaque, o Cinzano, o Martini e o Vinho do Porto, bebidas que se tomam na temperatura ambiente. Não era à toa que imperava absoluto o Rabo de Galo que, como sabem, é a mistura de pinga com Cinzano.


Apontamos que era raríssimo que as pessoas tomassem vinho (branco ou tinto) e, quando aparecia uma garrafa, eram aqueles adocicados de S.Roque ou Jundiaí. Cigarro industrializado nem pensar, pois o comum eram os rolos de fumo, comprados em pequenas porções e preparados com o onipresente canivete e com as folhas de milho alisadas. Em certa época do ano, apareciam as caixas de madeira com bacalhaus inteiros dentro, os barris com azeite vendido em garrafas que cada um portava de casa, as barricas com pinga, os tonéis de madeira com azeitona a granel (boa parte destas coisas existem ainda hoje nos Mercados Municipais, sobretudo os de São Paulo),


Mas, outras “extravagâncias” vieram à galope à conversa: como não existia “lava rápido”, muito menos água encanada, a única saída era lavar o carro em algum riozinho cuja estrada vicinal passava dentro. Mais um fato: não existiam fábricas de gelo, e as geladeiras eram raras, caras e a querosene e estavam nas casas dos mais ricos. Nestas, um valente e barulhento motor a gasolina puxava água para as raras caixas d’água permitindo o confortante banho de chuveiro. O resto se virava com o chuveiro “de corda”, onde se colocava água morna, com volume (e tempo) certo e se abria a água com um cordinha. A molecada já era aliciada com os cigarrinhos de chocolate PAN e os refrigerantes eram Crush, Cotuba, Tubaína, Fanta, Guaraná Arco-Iris, Groselha “vitaminada” Milani, Grapette, Groselha com água (no que chamavam de Capilé) e sorvete, só aquele no palito, onde a “casquinha” (sorvete de massa) era muito mais cara e reservada para os domingos. Todos usavam Tênis Conga e Alpargatas Roda, feitas de corda, sim senhor!,


Quando adoeciam, as mães providenciavam “parque” de soluções incrível: o presente Antiflogestine (será que era assim que se escrevia?) que era colocado ardente na pele da molecada, que pulava de dor, ou a Pomada Minâncora, o Nujol (originalmente indicado para o intestino, mas muito usado para domar os cabelos ressabiados), Para impressionar e dar brilho às madeixas tinham também o Brilcream, a brilhantina, o Glostora e o Gumex. E vinham a Emulsão de Scott, o Óleo de Fígado de Bacalhau (fortificante), o Óleo de Rícino (laxativo/purgante), o Lacto Purga, a Cibalena (dor de cabeça), as Balas Chita, o Biotônico Fontoura, Nos fins de semana a saída dos rapazes era jogar futebol nos campos maltratados e de terra, basquete na única quadra pública (lembramos que vôlei era coisa de menina) e uma saída “criativa” era nadar nos riachos em turma, roubar laranja e chupar cana surrupiada, Os esportes “sociais“ eram o Snooker e o ping-pong o que incluía trocar gibis já lidos e ir às matinês (onde os seriados animavam a turma), isto depois da missa aos domingos pela manhã, nas sessões “Zig-zag”, onde nos espelhávamos no Zorro, no Bat Masterson, no Randolph Scott, Tinha também o jogo de bochas, o jogo de malhas nas ruas, o jogo de palitos e os jogos de carta, onde imperava o “buraco”. Um dia, apareceu o "bilboquê". E também, o jogo de bétias (será este o nome?), empinar papagaios (feitos em casa), a coleção de figurinhas, o jogo de “bafo’, as bolinhas de gude, o jogo de pião. Enquanto isto, e já com a cabeça “rodopiando” resgatamos que nas ruas imperavam o Aero Wyllis, o Simca Chambord, os Renault Dauphine e Gordini, o DKW Vemag, os Jeeps, valendo até paquerar montados em trator (que durante o dia tinha arado muita terra!). Ah! E como a luz pública era rara, andava-se no escuro, orientados pelo “clarão da lua” cheia (como na boa música) e se “catava” vaga-lumes. Lá no fundo, um ruidoso rádio tocava um romântica música caipira. Quantas imagens, quantas saudades, quanta aventura....

domingo, 3 de outubro de 2010

Crônica 39. Arquitetura adoradora - S.Squirra

Arquitetura adoradora

Há algum tempo, constato a acrítica unanimidade odorativa em torno de Niemeyer e que isto me inquieta. Falo isto, pois este é um nome bem conhecido em todo lugar e não encontro vozes discordantes quando se trata de avaliar as suas questionáveis, para mim, obras como arquiteto. Olho-as objetivamente e concluo que, de fato, projetam específica filosofia engrandecedora do poder em todas as suas formas, distanciando-se do homem comum, objeto final da arquitetura social, aquela destinada aos espaços públicos. Nas reflexões, identifico principalmente o artista que conviveu com o sistema vigente, entregando sua arte para que esta fosse identificada como valor agregado aos governos a que serviu. Todos os tipos de governo, no mundo todo. Muito astuto, bem relacionado e incensado por altos segmentos do poder cultural, o senso benevolente desta parte da cultura brasileira acabou criando em seu entorno uma armadura, que o estigmatizou como “mito”, onde não se questiona os valores objetivos do seu trabalho. Pelo menos, não é corrente nos meios de difusão – sobretudo na mídia - análises críticas à sua obra. Esta aceita e difunde que tudo que produz é mágico e está acima de olhares críticos discordantes. Intrigado, só recentemente passei a opinar informalmente sobre este profissional, sabedor que era de que meus conceitos independentes poderiam chocar, uma vez que é aceito como “brilhante” e poderia ser eu que não entendia sua arte e seus projetos diferenciados. Tal precaução se justificava, pois o mesmo sempre foi tratado como "genial" pela maioria dos críticos e formuladores de conceitos e pela mídia, o que requeria atenção ainda mais serena sobre sua obra, comparando-a cuidadosamente com a criatividade de outros arquitetos. Dessa forma, passei a olhá-la comparativamente e com mais objetividade, cuidado e, sobretudo, com mais liberdade e, agora, ainda com mais convicção.


Com o tempo vi que como comunista havia sido preservado por poderosos e nunca trabalhou com muitas dificuldades, como todos os demais arquitetos (de fato, foi sempre protegido pela “inteligentzia’ e pela mídia brasileira). Como arquiteto, percebi que centra suas concepções no uso abusivo do ferro e sobretudo do cimento (um elemento estéril e que faz parte dos produtos “frios”, no lugar da madeira, da água, da vegetação e outros recursos confortantes..) que integrava o intento de certos grupos/lobbies industriais (inclusive do exterior) de exploração e uso deste tipo de material, sendo claro que foi a partir dele que o cimento deslanchou no país.


Como inovador resta perguntar: onde está, de fato, a criatividade em Niemeyer? Constato que sua obra é monotemática no enfoque da relação homem/espaço, sem a necessária inserção do humano no abrigo arquitetônico, o que inviabiliza a justeza do valor gigantesco que a ele atribuem. Estes motivos já seriam suficientes, porém outros se alinham, pois o balanço de sua obra revela que este arquiteto tem a) evidente desprezo pela natureza (ausência quase total de árvores, de verde, de água etc) correndo longe da arquitetura focada no homem. A arquitetura japonesa é um bom contraponto, pois insere estes elementos com muita freqüência nos espaços sociais; b) desatenção inaceitável para com a luz solar (certo que usar a luz natural é uma arte muito difícil), sobretudo em país com possibilidades tão extensas de uso criativo deste elemento de iluminação e aquecimento; c) espírito tresloucado pela grandiosidade espacial que, diga-se de passagem, faz o estilo da arquitetura nazista (grandes espaços lisos, sem natureza, com cimento, mármore etc...), tornando o espaço cênico opressor, tirânico. Some-se a isto, a frieza dos espaços que construiu sempre para “impressionar” externamente, quem circula “fora” da obra; d) intenção subjacente de “politizar” a arquitetura, como fez no Memorial da América Latina; e) a sempre não aplicabilidade “humana” da obra realizada, onde só que o importa é a aparente beleza da construção (onde o homem não interage ou a integra) e onde a funcionalidade e conforto não são prioritários e f) constata-se a precariedade temporal das obras, pois todas (!) precisam de reformas estruturais passados 15/20 anos. É o caso do Palácio do Presidente, o Memorial da América Latina etc. que requerem reformas que custam milhões, pois o cimento “trinca” e infiltra água. Ele não se preocupou que o Brasil tem clima tropical, alternando chuva e calor intensos, o que provoca o alargamento e contração do ferro/cimento, projetando enorme prejuízo aos cofres públicos.


A unanimidade é tanta que propagam que “tal obra é de Niemeyer” sem analisar a proposta nos seus detalhes, recursos, aplicabilidade, valores, usabilidade, durabilidade etc. A obra projeta-se unicamente por ser de sua autoria, o que confirma que esta acriticidade nivela perigosamente o padrão cultural do país neste assunto, sobretudo por que sublima valores tão importantes que são os postulados humanos da arquitetura. A tibieza cultural revelada nos últimos tempos me direciona para a delícia da obra de arquitetos mais criativos como os espanhóis Antoni Gaudi e Santiago Calatrava, dos americanos Frank Lloyd-Wright e Buckminster Fuller, do francês Le Corbusier, dos brasileiros Lúcio Costa e Vilanova Artigas e do ucraniano naturalizado brasileiro Gregori Warchavchik. Que beleza, que criatividade, que autonomia....

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crônica 38. Ciência e espiritualidade - S.Squirra

Ciência e espiritualidade
01.10.2010

Recentemente, uma amiga apresentou-me uma indagação interessante sobre a relação da ciência com as questões espirituais. Argumentei que de fato, a ciência alicerça-se em coisas de comprovação objetiva, palpável, matemática, da experiência concreta, assuntos da vida sistematizada do homem, enfim. Mas, adiantei que a dimensão humana vai além das experiências palpáveis, visíveis, pois a própria ciência indica que existem coisas que os olhos (e os demais sentidos) humanos não conseguem perceber, nem detectar como elementos do mundo real, apesar de perfeitamente mensuráveis com instrumentos sofisticados. Dessa forma, entendo que se abrem as portas para o campo do “escondido”, do não explicável, do invisível ao olho humano (por causa de algumas limitações do corpo humano, não vemos o raio X, o eletromagnetismo, o infravermelho, as ondas de rádio etc.) fazendo com que possamos incluir outros mundos em nosso espectro analítico.
Disse-lhe que intrigado com tais questões, há um bom tempo, sou atento a outras formas de energia, tendo incluído o universo das crenças nas minhas leituras e reflexões pessoais. Lembrei que desde criança, e pela mão de minha mãe, tive contato com o espiritismo. Mesmo sem compreender direito, tentava entender o que ela estudava e os ensinamentos que tentava passar aos filhos. Mais tarde, já adulto e ao chegar a São Paulo, um dia numa banca de rua topei com um livro de bolso que destacava o Buda. Ao folhear a obra me animei a ler sobre aquele ser interessante e abrir o leque filosófico sobre as questões existenciais que enfrentava na ocasião. Identifiquei-me com seus postulados e concepções de vida e passei a adotar as obras desta filosofia. Mais tarde, acabei descobrindo que o budismo se assemelha ao espiritismo sendo que ambas as filosofias têm concepções que tangenciam o catolicismo e por ai segue. Mas, tenho respeito e atenção também por outras crenças e práticas religiosas como a Umbanda ou o Xamanismo, pois sempre tive muita identificação com a força da terra, com as energias da natureza e de seus integrantes e com outras dimensões espirituais que a racionalidade não contempla.

A ela argumentei que os cientistas também têm interesse neste campo e vêm produzindo muitos livros interessantes que adentram o mundo da espiritualidade e das diferentes formas de energia nas quais eles procuram abrigo existencial. Um livro muito interessante é o “Relojoeiro cego” (que recomendo fortemente) de Richard Dawkins, que devorei concentradamente. Destaco ainda os livros de Fritjof Capra As conexões ocultas, por exemplo, ou o O Tao da Física, cujo subtítulo diz “Um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental”. O próprio Nitzche mergulhou nisto (A gaia ciência), e muitas outras mentes soberbas. Lembrei que não é raro materializarem-se obras e versões de visões que são chamados de “ficções científicas”, onde assuntos de dimensão distinta são enfocados, atraindo porções boas de leitores e espectadores

À minha amiga, que já é doutora em Comunicação, pontuei que para os cientistas, por precaução, é fundamental manter a mente aberta, estando sensíveis a outras formas de explicação dos fenômenos da existência e daqueles que vão além da “normalidade” da vida. Argumentei que fechar-se nos paradigmas relativos e circunscritos à ciência pode ser perigoso e mesmo demonstrar estreiteza intelectual. E justifiquei que os físicos (sobretudo os quânticos) vivem experiências malucas, pois os postulados permitem que eles cheguem conceitualmente perto do início do Big-bang e se acerquem da criação de tudo, portanto, perto de Deus... Mas, adverti que muitos físicos enfrentam impasse existencial profundo, pois chegam a uma situação onde a racionalidade científica não oferece superação conceitual suficiente e eles ou acreditam em Deus, obtendo explicações a partir da aceitação de uma força “maior’, ou mergulham em práticas exotéricas de toda ordem. Quer dizer, existe uma limitação conceitual, que muitos resolvem com práticas religiosas variadas, incluindo as comunidades místicas, as drogas alucinógenas, os chás de ayuasca etc.

Por fim, disse-lhe que todas são formas válidas e devem ser aceitas como tal, pois os seres humanos têm necessidades espirituais diferenciadas. E falei de uma obra que provocou bastante sucesso recentemente que é o documentário “Quem somos nós?”. Na sua descrição, definem a obra como “mistura ficção e documentário para nos mostrar que a realidade, da forma como a percebemos, é ilusória, que nós é que a criamos e que sim, nós podemos mudá-la. Depoimentos de físicos, filósofos e místicos afirmam que a matéria não é sólida como pensamos: ela é etérea e mutável, e que nossos pensamentos podem alterá-la. E que nós podemos ter controle sobre o nosso corpo, as doenças e as emoções, pois podemos escolher a realidade em que queremos viver e assim alterar nossas vidas” Assim, aconselhei ser bom abrir-se para o desconhecido, pois tem muitas outras dimensões do conhecimento rondando nossas mentes e corações...

sábado, 25 de setembro de 2010

Crônica 37. Encontros - S.Squirra

Encontros
25.09.2010

Os encontros fazem parte das surpresas nas andanças humanas. Fatos insólitos, integram a trajetória dos homens, constituindo-se como o inesperado, o sensível, o profundo, mesmo para os seres mais ingênuos, introspectivos ou distraídos. Não importando as razões, todos encontram algo saboroso em algum olhar lançado a esmo; descobrem função inédita em objeto pego sem maiores intenções, vivenciam prazer inesperado em algum pensamento vagabundo que viaja livremente, no descobrir de uma alma maravilhosa. São situações que surpreendem e revelam sensações que estavam inertes e escondidas minutos atrás.

Mas, em momentos conectivos intencionados ou inesperados, seres almejam cumplicidade com seres e almas procuram atracamentos sensitivos com almas, numa ânsia enorme pela troca, pela renovação, pela curiosidade com a serenidade alheia, pela expectativa projetada de diálogos, em simbiose partilhada, amorosa, permeada pela compreensão, estimulada pelo recíproco. Assim, uns convergem com outros em multiplicidade psicodélica de personalidades, formas, situações, intensidades, sentidos, tempos e lugares. A ânsia pelas experiências novas, desconhecidas e revitalizadoras conforta almas, amalgama espíritos, acalma desejos, pavimenta o sabor da vida. Não tem jeito: assimilar energias, acomodar variações, abrir-se!

O ato de encontrar o inédito desperta na intimidade do ser o desejo de mergulhar no novo, no inesperado, no desconhecido, estimulando febrilmente o córtex cerebral com a injeção de elementos ativos que inundam o coração e enchem de adrenalina e prazer as veias humanas. Quanta intriga, quanta vontade de saber mais, quantas perspectivas novas se abrem, que delicia... que brisa boa! Como turbilhão, a descoberta do desconhecido induz a um tempo diferenciado, a uma viagem ainda não experimentada, a diálogos revigorados, a interesses não provados, a satisfações indomáveis, a caminhos não viciados, ao despojar das almas, à vida, enfim. Como é cativante e estimulante! Quanta energia nova, quanto frescor inédito! Vamos lá: preparar as malas, mirar o infinito, liberar as repressões, enfrentar os furacões!

Pois as possibilidades são variadas. Um olhar despretensioso depara outro, vivo, investigativo, que vasculha ambientes. Câmbio, conexão feita! Que olhos simpáticos... têm email? A troca de calçada apresenta ser aleatório com quem se vai acidentalmente topar do outro lado. Seria por acaso? Não! Contato primário, que coincidência, qual é mesmo o número do iPhone? Uma fila modorrenta qualquer aponta simpático e inesperado perfil passos à frente. Que luxo, que alma garbosa, que vestes maravilhosas! Facebook? Qual é a direção mesmo? No coletivo, um perfume agradável mobiliza os sentidos e a memória, indicando a inebriante posição de origem. Que brisa, que doçura, que simpatia!. MSN... tem? Um andar cativante arrebata o mais escondido do interesse e faz mudar de caminho, pela delícia do acompanhar de movimentos. Que nobres passos, que beleza visual, quanta elegância! Sua direção no Twitter por favor!

Encontros, encontros, encontros. Tudo condiciona à ação, aumenta a pressão, dinamiza movimentos, remete a mais encontros, que incrementam emoções, viagens virtuais, sonhos calorosos, andares cúmplices, movimento, movimento, movimento. Simples, assim, experimente! Mas, atenção, como fruto proibido traz consigo perigos palpáveis e prováveis, pois como alerta Vinicius de Moraes “A vida é a arte dos encontros, embora existam tantos desencontros pela vida”. Independente das seguras agruras dos insucessos e da obviedade dos esforços vagos, os encontros se dão, não se pode evitar, são concretos, sem razão, permanentes e inesperados, valendo arriscar, permitir-se. Mesmo que sejam saudáveis só para, numa fração, alimentar a memória ou reviver sinapses cerebrais confortantes, reativando momentos confortantes com seres de alma limpa, que impregnaram nossa vida. Quanta coisa boa, quantas trocas emotivas, quantos encontros! Assim, uma opção sensata é abrir as almas, prestar atenção no inesperado, avançar no desconhecido! Pode dar certo! Vai que aquela era a vez?

Crônica 36. Turbulências - S.Squirra

Turbulências
24.09.2010

Ainda como estudante, certa ocasião fiquei enormemente animado com o surgimento de um movimento político que aflorava no Brasil, originado no meio dos trabalhadores. Era o PT, de fortes e boas memórias. Como muitos na época, me revigorei com o que constatava nascer, pois não conseguia me abrigar nos partidos de então, onde a Arena acomodava o chamado “sistema” e, do outro lado, permitiam o MDB que numa “caixa de Pandora” pirotécnica juntava um monte de “coisas” num caldeirão ideológico estranho, mas possível.

Na época, trazia dos anos vividos na França a consciência do movimento trabalhador vigoroso, consciente e muito aguerrido (na década de setenta, dizia-se que em Paris, tinha mais de uma passeata por dia, durante o ano inteiro). Interessado, lá tomei conhecimento da força e dinâmica das centrais sindicais, momento que me permitiu ler muita coisa nos jornais e em livros alternativos e consegui assistir palestras de intelectuais de esquerda e acompanhar debates de diversos matizes. Assim, e olhando o que se fazia naquela terra achei que o Brasil caminhava para uma ampliação adequada na representatividade social de seus segmentos, uma vez que sabia ser aquele dos trabalhadores um dos mais importantes. Afinal, somos todos trabalhadores! No início dos anos 1980 e amargurados com o golpe de 1964, muitos se emocionavam, irmanavam e lutavam pela experiência democrática de ter um partido original, saído da “base da pirâmide” e não de trabalhistas oportunistas, elitistas tradicionalistas, direitistas de várias tonalidades ou assemelhados. E muito esforço foi despendido, muita reunião realizada, muito diálogo travado, e depois de muitos reveses o partido foi criado e estruturado. Desde então, muita coisa aconteceu.

Depois de muitas tentativas e reformas internas, o partido conseguiu eleger um presidente operário oriundo das classes populares autênticas, mesmo sendo boicotado sistematicamente pela mídia conservadora e oligárquica. É certo que venho me assustando com alguns escândalos que pipocam na atual gestão, cujos métodos de prevaricação com o bem público não se justificam. Isto confirma o deslumbramento que grassa em todos os seres quando estes chegam ao poder (também na Rússia, na França, na Itália etc.). Mas, uma coisa não justifica a outra! O que acho torna-se inevitável é reconhecer que os índices sociais (não só os econômicos) dos dias atuais (e o Lula não é o único responsável por isto!) são saudáveis e encorajadores (leio que, neste momento, Brasil e China são os alvos dos investidores no mundo, colocando a Índia em terceiro e os EUA em 4º.!) e isto traz benefícios incontestes para toda a sociedade. E não somente para os segmentos da “inteligência” ou das elites empresarial e econômica que a compõe.

Tenho esperanças em dias melhores. Aguardo ansioso o futuro, pois me considero um cara otimista. Mas, pondero que escândalos incomensuráveis aconteceram em todos os anos da República, em todos os governos. Sem justificar, pode-se dizer que isto se configura até como uma “cultura” que, por se considerar impune na maior parte, tornou-se amplamente arraigada pelo país. Vários historiadores narram os períodos de constituição da nação, onde o modelo era o do espólio para Portugal, deixando os nativos à sua sorte. Este modo de “governar” foi herdado largamente pela maioria dos governantes que antecederam ou sucederam D.Pedro, dando chances para emergir a classe política que hoje conhecemos, onde o “estado sou eu”. E meus familiares, isto está garantido! A história revela que se pode elencar série enorme de escândalos em todos os governos, em todos os tempos, com todas as colorações ideológicas ou partidárias.

A saída? Uma ampla reforma política, pois o modelo vigente não consegue barrar prepostos de nenhuma coloração, infiltrados que estão nos infindáveis escalões que se compõe o governo brasileiro nestes dias. Isto é urgente, pois os tempos aplainados da economia global atual demandam mais controle, mecanismos decisórios mais claros e seguros e nações com processos sem as turbulências políticas que se presenciam neste momento. É certo que contribuirá muito se a mídia se assumir enquanto opção política, pois isto vai ajudar na pluralidade, no equilíbrio e na maturidade, tão em falta atualmente! E isto não é simples!

sábado, 18 de setembro de 2010

Crônica 35. De ervas daninhas e essências - S.Squirra

De ervas daninhas e essências

Esta é a resultante de uma liberdade que me concedi. Dividida em três, esta é a última delas.

Ao olhar ao longe uma vista panorâmica da natureza, onde se destacam amplos e verdejantes campos naturais, pode-se imaginar que ela seja composta por saudável e uniforme vegetação. As múltiplas tonalidades dos verdes e a linearidade de seus contornos podem sugerir, à distância, que tudo tem a mesma altura, composição, vitalidade, estrutura, enfim, que são todas plantas iguais e saudáveis. Mas, como a vista humana tem limitações biológicas de detalhamento (por isso, valorizam o “olho de águia”), na teoria da imagem aborda-se a questão do detalhe escondido nas imagens, que são valores importantes, mas imperceptíveis no plano geral (aqui, lembro do filme BlowUp, com Terence Stamp). As tecnologias modernas revelam que, quanto mais fundo se avança numa imagem mais detalhes são perceptíveis, indo até a escala nanométrica, onde se materializam valores absolutamente desconhecidos para a vista humana.

Sabe-se que olhar um objeto distante é traiçoeiro e, nestas captações “panorâmicas” os detalhes presentes nas mesmas não são percebidos, identificados, requerendo atenção para que a compreensão seja mais justa a partir da análise de perto, onde a ampliação ótica da mesma favoreça a precisão das qualidades dos seus variados elementos. Dessa forma, o que pode ser vigoroso e confortavelmente aceitável numa angulação macrométrica de uma planície, por exemplo, vai, de fato e no detalhe, revelar problemas de estrutura, fraquezas de formação biológica, imperfeições de toda ordem, presença de animais minúsculos, fungos diversos, sujeira plástica e ervas daninhas em profusão. Não adianta querer pensar e crer na direção contrária, pois cientificamente sabe-se que o real não é alterado pelas crenças impressionistas, mesmo que a mentalidade “de rebanho”, às vezes, queira impor caminhos e visões. Não é razoável advogar pela sublimação: uma coisa é composta do que objetivamente foi estruturada e os desejos e vícios individuais de quem olha não alteram a essência de seus entes criadores, mesmo com conceituações demoradamente elaboradas e convicções pétreas com muitas facetas. Da mesma forma, o discurso unilateral não define as coisas, pois cientificamente estas são compostas pelos seus elementos estruturantes, o que acaba evidenciando que os adornos imaginários constituem-se mais como puros delírios visuais de quem quer influenciar os olhares. A chamada sabedoria popular alerta que “nem tudo que reluz é ouro”. Assim, ervas daninhas não dão frutos e impedem o crescimento daquelas úteis.

Por isto, deve-se equilibradamente separar o que são os valores reais das imagens constituintes dos cenários (e, por conseqüência, das pessoas) que se enquadra. As ervas daninhas podem estar imperceptíveis nas imagens com pigmentações diminutas. Dessa forma, deve-se evitar tirar conclusões sobre os conteúdos do que captamos, pois a ilusão visual proveniente das imagens panorâmicas podem não expor todos os valores essenciais da mesma. Não adianta acreditar em impressões generalistas e olhares binoculares: é necessário análise objetiva e científica, de perto, corajosamente, olhando cada detalhe, cada centímetro quadrado do que é analisado. Sem estes predicados, nada está garantido, mesmo com a persistência de quem olha com a experiência do passar de muitos anos. O mais aconselhável è aceitar o que Paulo Freire disse: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Pois é, ver a essência. Isto é o ideal, apesar de escamoteado por este ou aquele, mais muito praticado aqui ou acolá.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Crônica 34. De cortiços e sujeiras - S.Squirra

De cortiços e sujeiras
17.09.2010

Em texto anterior reconheci que uma liberdade intelectual me havia permitido viajar por uma elaboração onde juntava coisas díspares como pavões, cortiços e ervas daninhas. Amigos sinceros me interpelaram, o que me fez dividir o intento em três. Aqui a segunda parte.

Algumas iniciativas têm chanceladas na sua fachada os sinais do insucesso. Como, por exemplo, quando alguém recebe a incumbência de limpar um chiqueiro há muito tempo não cuidado e, ao encarregado da missão, lhe é apresentado um meticuloso discurso, mas concretamente, para a limpeza é indicada sua única ferramenta: uma escova de dentes velha. Ressalta-se que o palavreado foi cuidadosamente elaborado para estimular o ânimo daquele trabalhador, que vai mergulhar na dificílima tarefa tendo tal instrumento como único equipamento que o auxiliará na ingrata investida. Nos distintos escalões, muitos acreditam que com muita oratória e explicitação cuidadosa de intentos meritórios de alta elaboração moral, o funcionário consiga dar conta do recado. Nada de providenciar carrinhos de mão, vassouras, rodinhos, mangueira com água sob pressão, sacos para o lixo, panos de algodão, detergentes, pás etc. nada! Depois de muita reflexão, acordaram que a escova de dentes surrada era suficiente! Assim, ao servidor só restava ir e cumprir a decisão, pois o resultado era altamente esperado.

Nos muitos discursos seus vários superiores apresentaram os princípios altaneiros da sociedade a que pertencem, lembrando que, caso não tenha sucesso, todo o sistema estará comprometido e, principalmente a continuidade do seu salário. Pois, como vai acontecer uma visita da Secretaria de Vigilância Sanitária tudo deve estar organizado, brilhando e sem cheiro algum. De complicante uma advertência havia sido colocada nas entrelinhas: cuidado, no cortiço mora um grande e vingativo lobisomem que vive de mau humor e que, nas noites de lua cheia, traveste-se de terrível e venenosa cobra coral. Cuidado, muito cuidado, portanto! Confiantes na competência do servidor dedicado, os dirigentes anunciaram que tudo estava bem, que nada poderia empanar o sucesso no atingimento daquele importante tópico, uma vez que a mesma produzia bens alimentares e eles visavam expansão de mercado. Mas, contencionista e tímida, escondera que para realizar todas as volumétricas tarefas de assepsia entregara ao honesto trabalhador somente a surrada escova de dentes e suas curtas e corroídas cerdas, justificando que, para defender-se do monstro, o mesmo devia usar a haste de plástico como espada.

A ilusão e a falta de consciência organizacional acabaram demonstrando que ninguém modifica processos longamente enferrujados sem as políticas e os instrumentais adequados. Pois, nada garante o sucesso senão o trabalho objetivo, acreditado e seguro, sem os equipamentos e recursos que limpam os terrenos venenosos, que domam os monstros amadurecidos, que fazem a assepsia das partes mal cheirosas. Sabe-se que os processos têm que ser claro e racionalmente planejados e os métodos de ação estruturados sistematicamente de acordo com a altura do intento a ser vencido, com análises científicas sólidas e objetivas, descartando o empirismo e as angulações espíritas que nada garantem. Isto pode ser fútil para alguns. Mas, é objetivamente acertado para outros.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Crônica 33. De pavões e ilusionistas - S.Squirra

De pavões e ilusionistas
16.09.2010

Uma liberdade intelectual enorme permitiu-me viajar por uma aventura onde tentava colocar junto coisas aparentemente díspares como pavões, cortiços e ervas daninhas. Aconselhado por amigos sensatos, dividi esta complexa e mirabolante ousadia em três. Aqui a primeira.

Numa sociedade justa, responsável e avançada, a vida deveria ser construída em cima de valores prensados à exaustão e exarados a partir da longa elaboração, com plataformas acimentadas em princípios robustos, mas, sobretudo, com alicerces seguros, que suportem tempestades de alta voltagem e escala Richteriana. Por advogar nesta direção, entendo que seria justo imaginar que não poderia ser algo parecido com um circo, onde a fantasia assume reinante, a brincadeira impera descontraída, a realidade é mimetizada e as impressões se unem à ação mágica dos ilusionistas. Puro espetáculo, completa apreensão do olhar, arrebatamento dos sentimentos, entrega plena.

Numa conceituação justa e rigorosa, a vida não seria composta em terrenos fictícios, onde é interpretada por equilibristas, com a exibição de animais exóticos e furiosos, com mulheres barbadas, palhaços tropeçantes e homens que exalam fogo. Dessa forma, nas suas segmentações não haveria espaço para seres coloridamente adornados ou engomados de toda ordem. Muito menos, caberiam modelos superficiais que difundem conceitos irreais, objetivamente não-sustentáveis, mais como volantes que encarnam discursos bolinadores da verdade. No sentido contrário, os representantes altaneiros seriam seres humanos em sua plenitude ética, autênticos e honestos à toda prova e não elementos cheirando a melosa e falsa colônia, meticulosamente bem penteados, cuidadosamente bem vestidos, com a dobra do lenço viciadamente bem feita. Numa estrutura sólida estes personagens seriam coletivamente entendidos como portadores de atributos que só cuidam da parte externa do corpo, a vestimenta, a cobertura, seu invólucro. Mas, e com o todo agrupado, o modelo representa objetivamente máscara cênica que esconde as reais e profundas qualidades e identidades do indivíduo, por isso, a melosidade excessiva, a bajulação insistente. Processos que aceitam esta modulação artística praticam erro de conceito e foco, se deixam iludir, pois se impressionam com o show que, de passageiro e insustentável, evidencia algo semelhante com o que é possível constatar no pavão, imaginando que este seria sempre bonito e vistoso. De fato, o pavão é uma ave como as outras e que, se olhada sem seu arco colorido - e de frente -, é escura, sem atrativo especial, mesmo feia e nada garante distinções estéticas excepcionais e duradouras, ficando muito perto de um urubu avantajado. Como os produtos kitches, a aparente beleza do pavão não se sustenta se olhada cuidadosamente (que dizer do seu pé), pois o delírio pictórico com as plumas do pavão não garante experiência verdadeira e duradoura, se configurando mais como ilusão pura, como a imagem da água nas areias do deserto.

A vida pura pressupõe abrir mão das plumagens pirotécnicas, das falsidades imagéticas, escapando das hienas com gumex na cabeleira, dos perfumes que tentam esconder as babas mal cheirosas, das insinuações sensuais implícitas, do comodismo conceitual, enfim. Por isto tudo, concluo lembrando que o pavão é tão falso quanto o circo, pois ambos só são vistosos e convencem quando armados. Entender isto requer objetividade, desprendimento e muita, muita coragem. E isto não é pouco, para muitos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Crônica 32. Competência e persistência- S.Squirra

Competência e persistência
14.09.2010

Nos espaços laborais de convivência estão presentes os dilemas do mundo social, fartamente conhecidos de todos. É certo que no cenário do trabalho manifestam-se os problemas relacionais daquele e nos seus contornos coletivos afloram os dissabores e embates que tipificam a experiência humana no seu sentido amplo. Assim, além de olhar algumas dimensões da trajetória humana, enquadrar cuidadosamente o território do trabalho apresenta-se como fundamental e imprescindível, pois este constitui espaço onde o homem conquista e mantém sua sobrevivência, despendendo neste a maior parte da sua vida útil.

Sabe-se que o trabalho faz bem à alma e abre espaço para a concretização do talento de cada um, já que ocupa o homem (sentido genérico), oferecendo razão à sua existência e abrindo oportunidade para a individualidade no cumprimento dos encargos do convívio pluralizado. Mas, por ser necessariamente hierárquico e centrado em tarefas, o trabalho torna-se inevitavelmente competitivo e, na maior parte do tempo, materializa-se como missão solitária, árida, arisca e mesmo ingrata. Muitos poderão advogar que a moderna sociedade empresarial prega que nestes territórios se pratique a união e a convergência coletiva, embora a realidade desnude que as condições concretas do mundo do trabalho adubam distanciamentos, inseguranças e desconfianças. Sobretudo, frieza e formalismo nos relacionamentos, concorrência acirrada e indiferença entre pares. Parece que sempre foi assim.

O homem, na sua trajetória profissional, transita por várias empresas e constata dura realidade em muitos locais. Entretanto, algumas vezes, o cenário pode ser ainda pior: somam-se ao território movediço antes citado a existência da “difusão viral”, que se caracteriza como o impessoal ambiente fofoqueiro, fútil e nada construtivo, onde trabalhadores incompetentes escamoteadamente espalham versões dissimuladas sobre pessoas visadas que querem desestabilizar, e mesmo substituir quando, nas suas procuras por destruição e poder, arquitetam conquistar simpatizantes para suas “causas”. Para tanto, se fazem de vítimas ou incompreendidas e desencadeiam campanhas difamatórias sobre seus alvos, incluindo nisto a vida social do mirado, elencando argumentos dissimulados contra seu comportamento, supostos erros de avaliação, ineficiência de desempenho, unilateralismo, vícios de toda ordem, enfim. Desnecessário dizer que todos vivenciam isto em alguma dose, nos muitos lugares por que passam, nos tempos vividos de toda ordem, pois sempre estarão convivendo com eventual ser humano recalcado (que evita o embate puro), incapaz (que foge da mensuração das competências que apontam as verdades) e invejoso (que recusa julgamentos onde só os méritos prevaleçam).

No geral, sabe-se que nos múltiplos cenários de interação laboral poucos se conhecem de verdade, raros partilham sinceridades (mesmo na adversidade), enquanto alguns acolhem as diferenças (naturais, por certo), se aceitam, agrupando forças na mesma direção, justo aquela necessária para o fortalecimento da entidade na qual todos trabalham, onde se irmanam. Mas, raríssimos percebem as vantagens que advêm do contato aberto trabalhando com outros, integrando as mesmas equipes, pois como disse José Saramago “aprender com a experiência dos outros é menos penoso do que aprender com a própria". Por isso, os desafios das tarefas conjuntas indicam que é necessário incentivo para as relações alicerçadas no companheirismo e na ética, pois em algum momento as máscaras vão esmaecer, as incompetências emergir e os desvios de conduta ficarão expostos. É questão de tempo, bastante persistência, dose boa de confiança e paciência budística. Estes são princípios fortes, pois às vezes, a convivência espacial com um desafeto enrustido pode durar anos, mesmo décadas, constituindo longos períodos de convívio “desconfiado”, pouco sincero, raramente autêntico, quase nunca seguro. E, seguramente, insalubres.

Por isso, o mundo laboral pode gerar situações que criam “doenças” físicas e psíquicas, que podem atingir a saúde dos seres e não dinamizam as instituições, muito menos apontam para o crescimento e a bonança de todas as partes envolvidas, homens e instituições. Como o assunto é complexo e difícil, nessas situações, só mesmo uma boa Ave Maria, muito axé, reforço na terapia, com boa benzedeira e muita arruda na orelha. Complementarmente, resta encarar com tranqüilidade e tocar em frente, apostando que os seres amadureçam, alcancem a coragem para os embates francos e, melhor, que encarem diálogos sinceros, estando abertos às razões do outro. Isto não é fácil, mas deve ser intentado. Graça, uma amiga de Santos um dia confessou: “já sou tão amiga dela, que até nos permitimos discordar radicalmente...” Bonito, não?

Assim, seria ingenuidade imaginar que um dia vingarão a sinceridade e a abertura dialógica para o acolhimento das razões dos interlocutores nas formas trabalhistas do relacionamento humano? Não penso assim, pois tenho certeza que onde existir competência, honestidade e coragem as arestas serão esmerilhadas, a verdade aparecerá polida e a sabedoria emergirá vencedora.

domingo, 12 de setembro de 2010

Crônica 31. Paris, Contrescarpe - S.Squirra

Paris, Contrescarpe
12.09.2010

É raro encontrar ser humano que não ama ou deseja conhecer Paris. Por largamente falada, é impossível ficar indiferente ou imune a esta metrópole, que traz no nome o mágico, o refinado, a arte, o romantismo, a aventura, a beleza, a poesia, a avant-gard... enfim, tudo!. Inebriados por seus encantos, muitos autores a descreveram longa e detalhadamente revelando seus inúmeros prazeres e discorreram criativamente sobre suas vivências ao interagir com ela. Poetas, compositores e artistas a cantaram em prosa e verso, revelando passagens com suas maravilhosas seduções, cultura diferenciada, notabilidade e sofisticação permanente. Um clássico é a obra de Hemingway Paris é uma festa, que fala da vivência do escritor na região onde morou, local muito particular e típico, que é a Praça de la Contrescarpe. Por coincidência, o escritor Milton Hatoum relatou recentemente experiência interessante na mesma praça em sua coluna no Estadão, quando ao falar de encontro com um clochard (mendigo de rua) centrou sua narrativa nas qualidades desta praça simpaticíssima e da Rue Mouffetard, que leva à Praça d’Itália, incluindo a vizinha Igreja de Saint Médard. Isto tudo, revolveu minhas memórias, o que motivou o breve relato a seguir.

Quando optei por morar em Paris, em junho de 1975, era pleno verão. Naqueles dias longos, brilhantes e agradáveis desta época do ano, fui levado por amigos para uma andança pelos lugares que freqüentavam, onde se sobressaía o Quartier Latin. E, sem entender direito por onde passava, antes do anoitecer acabamos chegando à Praça de La Contrescarpe que, por estar perto da Sorbonne, no coração do Quartier Latin, reunia sempre muita gente bonita e estudantes simpatizantes dos movimentos de esquerda que vinham de mudar a cidade no levante de 1968. Era uma grande festa, algo indescritível, pois todos portavam certo orgulho de ser contestador, de ser filósofo, ser de esquerda. Os bares eram imensos e as mesas, colocadas na calçada do principal reduto alcoólico, eram disputadas ardentemente, mas com certa formalidade, o tempo todo. Eram espaços amplamente conhecidos de todos e tinham nomes como Cardinal, La Choppe, Café des Arts. Certo que, em algum deles, todos queriam ver e ser visto, todos precisavam se assentar, abrir um livro, um jornal, perscrutar com olhar vago o entorno, ordenar um “balon du rouge” (copo de vinho da casa) ou uma “biérre a la pression” (chope). Todos procuravam algo no ar (saudosos do olfato animal perdido), investigavam se tinha alguém diferente e interessante, uma alma solta disponível, alguma celebridade que chegasse.... e focavam nas conversas mantidas sob controle, mas instigantes, sérias e demoradas. Que charme, que erudição, que espírito culto exalava de todos. E isto, sob muita, demais, exagero de fumaça de cigarro. Como fumavam! Fazia parte da soberba do “cenário”, tinham até certa altivez, arrogância de ali estar, fazer “tipo”, tudo junto, que composição!.

Na Praça de la Contrescarpe, naqueles bares, naquelas mesas, naquele fervilhar enfumaçado comecei minha imersão por Paris, sua cultura, seus bistrôs, galerias de arte, seus cantinhos, museus. A dimensão humana de seus filósofos, suas manhas e suas tribos. Ali encontrei muita gente bonita, charmosa e diferente. Muitos muito bem trajados, outros denunciavam que não tomavam banho a dias. Alguns se interessavam por saber de mim, outros não dirigiam uma palavra àquele alienígena que acabara de chegar. Afinal, era só mais um! Ali conversei com alguns brasileiros que haviam se exilado, pela força do Golpe de 1964 ou simplesmente tinham imigrado à procura de melhores oportunidades, muitos com o samba a tiracolo, outros, de fato, com as drogas na bagagem. Que efervescência, tudo misturado e uma enorme coisa movediça, que se deslocava de mesa em mesa, de papo em papo. Incólume, a Praça, seus habitantes natos, seu comércio diurno que era absolutamente normal, tudo sobrevivia em volta do seu chafariz central. Na Rue de La Mouffetard descobri a maravilhosa e diversificada feira que acontecia aos domingos, onde era possível encontrar os produtos da culinária africana, árabe e brasileira, uma vez que esta rua era a porta de saída para a Itália e onde os viajantes preparavam os estoques para as viagens. Na mesma Mouffetard, um dia, reencontrei e resgatei o maravilhoso sanduíche Kebab que nunca mais esqueci, pois era absurdamente saboroso e bem preparado. Em várias ocasiões, ao chegar a Paris, mesmo já estando morando no Brasil, saia do Aeroporto e pegava o 46 (ônibus normal da RATP que cruza a cidade) e descia perto da subida da “Mouffe” e, ainda com a mochila, parava naquele árabe só para matar a saudade do Kebab que preparava. Fazia isto, olhando através da pequena vidraça, a Praça de La Contrescarpe. O prazer da memória confirma Hemingway quando este diz “Se tens a sorte de teres vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida, ela estará com você, porque Paris é uma festa móvel”. Absoluta verdade...

sábado, 11 de setembro de 2010

Crônica 30. Piru-Din (1) - S.Squirra

Pirú, da dinastia dos Din (1)
12.09.2010

Sempre procurei fazer amigos e um dia o saudoso compadre Jorge Batista me levou para ser apresentado ao Pirú. Fui até a casa onde ele morava, divertindo a todos com suas estripulias incansáveis, pois ele era jovem, faceiro, brincalhão, muito bonito, saudável e adorador de uma boa farra. Cabelos longos, alourados e fartos e, como era do seu feitio, ao ser chamado me olhou e amigavelmente veio me cumprimentar e sentir meus cheiros. Nossos corações se identificaram imediatamente, o que fez com que ele entrasse definitivamente em minha vida e viesse morar na casa que eu habitava na Vila Madalena, no início dos anos 1980, logo depois de voltar da França. Como eu já tinha feito a opção por não ter filhos próprios (é certo que tem sempre alguns postiços), aquela se desenhava como uma grande possibilidade de companhia, aprendizado e amizade que se materializava enquanto encontro de almas. Quanta novidade, quanta energia, quanta investigação olfativa pela abertura dos novos espaços, quanta gente bonita, quanta vida noturna, diferente...!! Farrista e boêmio, como mais tarde veio a confirmar, aquele era seu território nato.

Filho bastardo de alguma escapada do pai (ou de sua mãe? Já não me lembro mais), herdara muito da nobreza, sabedoria e controle de uma parte dos antecedentes, que sempre se misturava com a vagabundagem e irresponsabilidade do outro lado. Era filho de pai (ou mãe) com pedigree e um(a) vira-latas. Assim, tinha comportamento e educação exemplares, mas adorava se enfiar nos lugares mais sujos à procura de uma aventura inédita. No olhar, uma de suas mais envolventes qualidades, sempre dialogando com o sorriso perene e cativante. Este era o Pirú-Din, corpo de animal e sensibilidade de gente que um dia veio para o meu lar e marcou minha vida. Passamos série riquíssima de emoções, num dos períodos mais experimentais da minha vida, o que fez com que ficássemos juntos cerca de 10 férteis, dinamizados e divertidos anos.

Semanas após o início do nosso convívio, fui alertado por alguém mais experiente que precisava ter atenção com suas vacinas, pois tinha um ano de idade e agora sua saúde dependia do meu acompanhamento preciso. Ao levá-lo ao primeiro médico, sua ficha requeria a indicação de um nome (sim, dele!). E, como havia adotado a contração do seu nome original, prontamente apresentei-o à recepcionista que, imediata e desacreditadamente retrucou: “Pirú o que?”. “Sim, senhora”, devolvi com sorriso maroto no canto da boca. “Pirú, da dinastia dos Din”!. Assim, ó: “P-i-r-ú tracinho D-i-n”. Pronto, seu nome acabava de ser definido. Ela me olhou intrigada e candidamente deve ter pensado: “Cada uma que me aparece”! Adianto que a opção surgira criativamente no intento de não causar traumas ao meu amigo, pois na ausência de nome melhor, seus amiguinhos anteriores o haviam denominado “Peludinho”. Mas, como adentrava a idade adulta, um nome destes pegava mal, não? Muito melhor algo como Pirú, que afinal de contas, significa a masculinidade em muitos recantos do interior brasileiro. Pois é. Pirú-Din! E assim, ficou.
Que saudades, Pirú, o menino que veio dos Din, da longínqua China!! Quantas aventuras....

Obs.: Como o tema é rico e vai continuar, a numeração se fez necessária.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Crônica 29. Brunello de Montalcino - S.Squirra

Brunello de Montalcino
10.09.2010

Um vinho bom é uma coisa indescritível, não? Pois é, mas chegar a este patamar requer muito treinamento intermediário, o que se dá em múltiplas variações etílicas de percurso, nas variadas experimentações líquidas necessárias para a maturidade gustativa. Sabe-se que com o avançar dos anos, a humanidade passa por processo de aquilatamento dos hábitos em geral e dos paladares em particular. Na puberdade, se aceita bem um Martini seco, sem gelo, o que, em seguida, desperta o iniciante para o indescritível “Rabo de galo”, que introduz gama criativa de caipirinhas, chegando ao leque enorme de bebidas “exóticas”, entre elas, bagaceira, pisco, rum, vodka etc. As experimentações são tão ousadas que, um dia, coloca-se tudo isto junto e bate-se, no que chamam de "coquetel molotov". Que treinamento duro! Num determinado momento, alcança-se a comodidade da devoção à gelada cerveja que, longamente, impera imbatível, pois permite demoradas conversas e o consumo do tempo que sobra, uma vez que nada mais de práticas esportivas, leituras, passeios etc. A fase dos intermináveis papos com os amigos, amplamente regados com esta bebida e acompanhados por churrasco e petiscos variados dura bastante até que, um dia, saturados de tanto líquido e pela sensação de empanturramento que dali advém, desembocamos na sofisticação madura dos prazeres de Baco. É justo o momento quando a alma pede mais paz e delicadeza que olhamos de forma diferenciada para o vinho, bebida entendida como “superior”, indicada para “os momentos especiais”, que trazem consigo mais glamour, charme, mais privacidade, cultura, com consumo mais controlado, em momentos mais intimistas, com a voz mais romântica, à meia luz, olhos nos olhos....

Diferentemente dos antecessores, a opção pelo vinho condiciona os adeptos a filiação social para práticas palativas com base na gustação mais requintada, solicitando certa dosagem de refinamento nos costumes de consumo, uma vez que requer tempo e certo comedimento, com equilíbrio na sua absorção, requisitando dedicação diferenciada para conhecimento das enormes nuances nas quais é ofertado. E, sobretudo, recursos financeiros consistentes, Assim, no período de treinamento e numa primeira fase da investida neste campo infinito, um olhar simples pelo rótulo abriu as papilas gustativas de muitos para coisas que num espectro de gradação foram do hoje impraticável Sangue de Boi, iniciando a ascensão que incluía o Chateau D’Argent, o Barão de Lantier, o velho Forestier, o Liebfraulmilch e por ai todos foram. Um dia, aportaram pelas “terras brasilienses” os chilenos e, em seguida, fomos surpreendidos pelos argentinos, que chegavam competindo saudavelmente. Mais à frente, apareceram os franceses, portugueses e italianos, sendo que mais recentemente a variedade multiplicou-se enormemente, pois além destes, apareceram os australianos, os africanos e até os excelentes vinhos brasileiros produzidos no Nordeste do país. Gole daqui e dacolá, as descobertas são variadas, as safras reconhecidas, as uvas estudadas e a cultura em evolução permanente. Até cursos e degustações foram praticados!

Num arroubo de gratidão, um dia pensei em oferecer uma garrafa de excelente vinho a um médico que tinha ajudado excepcionalmente um parente próximo. Adepto dos bons modos à mesa, meu irmão João me indicou um tipo de alta classe, infalível, de agrado garantido: o Brunello de Montalcino. De posse de uma garrafa, fui iniciado nas suas delicadas qualidades e nos altos performances da sua composição e preparo. Que bom conhecer estas especiarias, mas quanto custa mesmo isto? Meu Deus! Excepcionalmente, vamos ficar com uma.

Tempos depois, em período de férias na Itália, pude constatar a fertilíssima carta de opções de todo tipo de vinhos, muitos altamente recomendáveis e por preços fortemente convidativos. Ali, é possível ter vinho de qualidade distinta por algo cerca dos seis euros, o que chega perto dos 15 reais dos dias atuais. Mas, e novamente com meu irmão João, numa pesquisa recente numa adega no centro de Salerno, descobrimos garrafas do Brunello de Montalcino com preços incrivelmente sedutores. Optamos por comprar algumas garrafas, pois a diferença era brutal. À noite, felizes, abrimos uma delas e saboreamos aquela iguaria com todo o tempo e estilo requeridos. Brindes para cá, conversas para lá, mais um pouquinho aqui, completa o cálice ali e a segunda garrafa foi apresentada. Em determinado momento, constatei que o álcool começava a fazer efeito, o que não me impediu de continuar no convívio daquela experiência ímpar, de forma diferenciada, pois sabia que aquele era um momento único. Com o fim da noite, constatei uma coisa inédita: eu era o único brasileiro assalariado, oriundo do interior do Estado de São Paulo que um dia ficou alto tomando Brunello de Montalcino, uma vez que isto só é possível aos fartamente endinheirados. Definitivamente, aquela era uma história surpreendente e que merecia um destaque: finalmente um trabalhador, no exercício da sua profissão, um ser humano normal, podia bradar alto: fiquei alcoolicamente inebriado e alegre tomando exclusivamente Brunello de Montalcino! Quem sabe, isto aconteça algum outro dia, de preferência com meu irmão João. Com Brunello de Montalcino é o que desejo! Mas uma coisa é certa: vou trabalhar ainda mais, pois o prazer foi incomensurável...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Crônica 28. Paris, a primeira vez - S.Squirra

Paris, a primeira vez
13.09.2010

Paris é, seguramente, uma das cidades mais agradáveis, desejadas e conhecidas no mundo. Um poder atrativo diferenciado emerge quando alguém fala dela, de seus encantos, suas galerias, seus hotéis, seus bares, restaurantes, livrarias, jardins, do Sena ... Superando as melhores metrópoles, experiências impressionantes esperam os que se motivam a amá-la, uma vez que é cantada e escrita pela generosidade que dedica a todos seus amantes. Por doar amor incansavelmente, acolhe tanto abonados quanto aqueles com recursos controlados, Neste último grupo, me inseria quando parti para conhecê-la.

Em determinado momento da vida, juntei uns trocados, preparei uma mochila e no melhor estilo da música do Gilberto Gil Expresso 2222, especialmente quando diz “Se oriente rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul...” rumei para a Europa. Inicialmente estava decidido a morar em Londres, passando um tempo pela casa de amigos que moravam em Paris. Por pura coincidência, depois de dias vagando por Madri, ao chegar a Paris, em junho de 1975, era véspera do meu aniversário. Em Paris, sem ter localizado os amigos, desfrutei a tarde do primeiro dia andando e tomando cervejas, à espera de que alguém atendesse ao telefone que tinha como referência. O dia passou, a noite chegou e sem falar uma sílaba da língua, ao anoitecer fui acolhido por um porteiro português que me deu abrigo na recepção de um hotel perto do metrô Barbés-Rochechouart. A condição era clara: dormir naquele sofá velho no canto escuro e partir ao amanhecer. Com os primeiros raios agradeci, sai rápido e, numa aventura sem precedentes, dirigi-me à entrada do Metrô, onde uma mal humorada senhora disse-me o preço do bilhete individual, naquele idioma incompreensível, é lógico. Atônito com os grunhidos que ouvi tive paralisia geral, e o único gesto lógico foi enfiar a mão nos bolsos e sacar as moedas que tinha e dispor tudo para ela, pois nada entendia do que falava: “Um franc, quatre-vingt, messieur”!. Calmamente, somou as moedas, falando naquele idioma que meses depois assumi para mim, entregou o bilhetinho amarelo e pela primeira vez na vida, fui na direção dos corredores que dão acesso a uma estação de Metrô (lembro que, nesta época, São Paulo ainda não contava com este meio de transporte).

Transposto o primeiro obstáculo, adentrei o túnel e após superar as mirabolantes conexões, consegui chegar à estação La Nation. Ao sair, subindo as escadas fui tomado pela consciência de que, justo naquele dia, eu completava anos (quantos não sei mais!). Das muitas portas de saída, aleatoriamente escalei a que dava exatamente em frente ao magnífico Bar La Triomphe! Era pouco mais de sete da manhã e decidi começar o dia procurando por um café naquele aconchegante lugar. Lá dentro, olhei cuidadosamente e, em pé, no balcão, mirei o cidadão ao lado que tomava alguma forma de bebida alcoólica e intimamente pensei: é isto, vou comemorar meu aniversário sozinho, aqui, agora! Para o que, após a indagação olhada do atendente, disse algo como: “um igual, para mim, por favor”! Não, ele não entendeu! Ah, sim, vamos internacionalizar a conversa! “The same for me, please!”, que também não surtiu efeito. O que superou o impasse dialogal foram os inúmeros gestos e a minha concordância após ele emitir alguns sons, novamente indecifrados. Ah! Que bom, ele entendeu e vai me tirar um chope bem gelado! Mas, o que é aquilo que colocou junto? Bom, vamos experimentar, não restava outra opção: era chope com soda limonada, no que mais tarde entendi ser o conhecido “demi-panaché”. Quoi puis je faire, on vais boire ça!

Um olhar pela porta revelava que o sol saía e a cidade acordava calma e deslumbrante... Meu coração acompanhava a emoção e o cérebro viajava a mil: ali, naquele momento eu estava assumindo Paris! Confortado e algo confiante levantei simbolicamente o copo e me declarei: “Santé”, minha cidade querida!” Aquilo simbolizava intimamente que eu, destemida e tranquilamente, me dispunha a mergulhar nos até então desconhecidos encantos que a sedutora metrópole possuía. “Salut a tout les amies, a tout les oiseux, a les belles femmes, salut les compaigns, voilá mes freres, ici suis je, une autre fois...”... A partir daquele momento, tomei a liberdade de secretamente me considerar parte daquele cenário, um ser que retornava ao espaço conhecido, ao conforto do lar e das experiências do passado. “Paris, mon amour, c’est ma première fois, mais que belle histoire nous aurront ensemble! ».

domingo, 5 de setembro de 2010

Crônica 27. Argentinos? Gente fina.... - S.Squirra

Argentinos? Gente fina...
05.09.2010

É comum perceber certa unanimidade entre os brasileiros quando estes falam dos argentinos e sua prepotência de serem diferentes, superiores, desgrudados da América, mais próximos da Europa. Piadas rolam à vontade na rede e o sarcasmo prolifera nas conversas reais em geral, tornando-se questão “de Estado” quando o assunto é futebol. No Brasil, a avassaladora convergência coletiva que planifica as opiniões maldosas sobre os amigos do sul une desafetos, abraça inimigos, junta fiéis de todas as torcidas, num prazer inconfundível quando estes saem perdendo em qualquer aventura ou são espezinhados nas provocações que circulam por todos os cantos. Como não podia ser diferente, geralmente me associava a esta prática, consciente de que tal adesão poderia ser um perigo, pois as generalidades são traiçoeiras. E uma experiência recente no exterior confirmou quão errado o simplismo era.

Estava em Roma, percorrendo com familiares alguns dos encantos desta maravilhosa cidade quando, de repente, estoura o pneu, cortado pelo atrito deste com a guia da sarjeta. Racionalmente, nada havia a fazer e a única saída era mergulhar nos procedimentos manuais da troca de pneus, mesmo atormentados pelo calor enorme que existia fora do automóvel. Como o veículo era novo demandava atenção especial para os procedimentos e requeria mesmo a leitura do manual para descobrir como sacar o estepe, meticulosamente guardado e preso à carroceria. No meio do trânsito, naquele domingo, 25 de julho, eu e meu irmão João metemos a mão “na massa” e começamos a operação, enquanto a Sueli procurava no entorno algum local para comprar água gelada, pois o calor das pedras do calçamento se fazia presente imediatamente. Tudo andava razoavelmente bem até o momento de soltar o pneu do cabo de aço que, apesar de afrouxado, insistia em não liberá-lo. Minutos infindáveis – e suados – se passavam e, mesmo debaixo do carro, nada de conseguir sucesso na liberação do estepe. Ora entrava eu embaixo do mesmo e, cansado, revezava com meu irmão que, naquele calor, com as costas no piso escuro, olhávamos estupefatos um para o outro, dado o insucesso no intento. Quando, em determinado momento, aproxima-se educada e calmamente um senhor que, apesar da barba já clareada pela idade, demonstrava compreensão com o impasse e externando solidariedade discreta e determinada com a situação. No primeiro diálogo, pudemos perceber que estava acompanhado por um jovem bem vestido e uma moça que tinha uma câmera fotográfica sofisticada nas mãos. Disposto, embrenhou-se cuidadosamente no apoio à solução do problema, sem petulância, sem pressa, sem impor “autoridade” pessoal no assunto, tendo mesmo, chegado a entrar embaixo do carro, sujando-se, como havíamos feito. Leve e amigável, ao dialogarmos com aquele solidário senhor, pudemos perceber seu sotaque castelhano, o que nos chamou a atenção, pois a Espanha acabara de conquistar a Copa do Mundo de Futebol.

Concentrados no problema, em determinado momento finalmente conseguimos liberar o pneu sobressalente, o que aliviados e felizes, nos levou a uma comedida confraternização masculina, pois dali para frente era só substituir o vazio pelo pneu cheio. Irmanados nas tratativas finais, quando João, meu irmão, amigavelmente emendou: “Ah! Vocês estão felizes, pois ganharam a Copa, não”? O senhor levemente grisalho nos olhou calmo e delicadamente respondeu: “Não somos espanhóis. Argentinos”. Ah!, bom! Argentinos. Quem diria! Problema solucionado, eles se prontificaram a partir, quando insisti em oferecer um pouco da água mineral gelada para que bebesse e lavasse suas mãos, o que só consegui depois de alguma insistência. Despediram-se amigável e simpaticamente e devagar desapareceram na multidão naquela tarde extremamente quente em Roma. O silêncio imperou com a saída deles, fazendo com que depois de alguns minutos de reflexão individual tanto eu quanto meu irmão concordássemos que o gesto de fraternidade e cumplicidade tinha sido exemplar, sobretudo vindo de argentinos. Ôpa! Assim não! Olha o preconceito ai de novo! E tomamos a decisão de nunca mais expressar que os argentinos são chatos ou pedantes por princípio, uma vez que isto é sempre frágil, incorreto e insustentável. Aliás, outros não gostam dos franceses (conheço muita gente), nem por isso generalizamos adjetivos pejorativos contra os gauleses. Assim, e definitivamente, afirmo que doravante tomarei cuidados extremados com esta brincadeira à qual eu também aderia. Argentinos, perguntareis, gente fina, direi!


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