Paris, Contrescarpe
12.09.2010
É raro encontrar ser humano que não ama ou deseja conhecer Paris. Por largamente falada, é impossível ficar indiferente ou imune a esta metrópole, que traz no nome o mágico, o refinado, a arte, o romantismo, a aventura, a beleza, a poesia, a avant-gard... enfim, tudo!. Inebriados por seus encantos, muitos autores a descreveram longa e detalhadamente revelando seus inúmeros prazeres e discorreram criativamente sobre suas vivências ao interagir com ela. Poetas, compositores e artistas a cantaram em prosa e verso, revelando passagens com suas maravilhosas seduções, cultura diferenciada, notabilidade e sofisticação permanente. Um clássico é a obra de Hemingway
Paris é uma festa, que fala da vivência do escritor na região onde morou, local muito particular e típico, que é a Praça de la Contrescarpe. Por coincidência, o escritor Milton Hatoum relatou recentemente experiência interessante na mesma praça em sua coluna no Estadão, quando ao falar de encontro com um clochard (mendigo de rua) centrou sua narrativa nas qualidades desta praça simpaticíssima e da Rue Mouffetard, que leva à Praça d’Itália, incluindo a vizinha Igreja de Saint Médard. Isto tudo, revolveu minhas memórias, o que motivou o breve relato a seguir.
Quando optei por morar em Paris, em junho de 1975, era pleno verão. Naqueles dias longos, brilhantes e agradáveis desta época do ano, fui levado por amigos para uma andança pelos lugares que freqüentavam, onde se sobressaía o Quartier Latin. E, sem entender direito por onde passava, antes do anoitecer acabamos chegando à Praça de La Contrescarpe que, por estar perto da Sorbonne, no coração do Quartier Latin, reunia sempre muita gente bonita e estudantes simpatizantes dos movimentos de esquerda que vinham de mudar a cidade no levante de 1968. Era uma grande festa, algo indescritível, pois todos portavam certo orgulho de ser contestador, de ser filósofo, ser de esquerda. Os bares eram imensos e as mesas, colocadas na calçada do principal reduto alcoólico, eram disputadas ardentemente, mas com certa formalidade, o tempo todo. Eram espaços amplamente conhecidos de todos e tinham nomes como Cardinal, La Choppe, Café des Arts. Certo que, em algum deles, todos queriam ver e ser visto, todos precisavam se assentar, abrir um livro, um jornal, perscrutar com olhar vago o entorno, ordenar um “balon du rouge” (copo de vinho da casa) ou uma “biérre a la pression” (chope). Todos procuravam algo no ar (saudosos do olfato animal perdido), investigavam se tinha alguém diferente e interessante, uma alma solta disponível, alguma celebridade que chegasse.... e focavam nas conversas mantidas sob controle, mas instigantes, sérias e demoradas. Que charme, que erudição, que espírito culto exalava de todos. E isto, sob muita, demais, exagero de fumaça de cigarro. Como fumavam! Fazia parte da soberba do “cenário”, tinham até certa altivez, arrogância de ali estar, fazer “tipo”, tudo junto, que composição!.
Na Praça de la Contrescarpe, naqueles bares, naquelas mesas, naquele fervilhar enfumaçado comecei minha imersão por Paris, sua cultura, seus bistrôs, galerias de arte, seus cantinhos, museus. A dimensão humana de seus filósofos, suas manhas e suas tribos. Ali encontrei muita gente bonita, charmosa e diferente. Muitos muito bem trajados, outros denunciavam que não tomavam banho a dias. Alguns se interessavam por saber de mim, outros não dirigiam uma palavra àquele alienígena que acabara de chegar. Afinal, era só mais um! Ali conversei com alguns brasileiros que haviam se exilado, pela força do Golpe de 1964 ou simplesmente tinham imigrado à procura de melhores oportunidades, muitos com o samba a tiracolo, outros, de fato, com as drogas na bagagem. Que efervescência, tudo misturado e uma enorme coisa movediça, que se deslocava de mesa em mesa, de papo em papo. Incólume, a Praça, seus habitantes natos, seu comércio diurno que era absolutamente normal, tudo sobrevivia em volta do seu chafariz central. Na Rue de La Mouffetard descobri a maravilhosa e diversificada feira que acontecia aos domingos, onde era possível encontrar os produtos da culinária africana, árabe e brasileira, uma vez que esta rua era a porta de saída para a Itália e onde os viajantes preparavam os estoques para as viagens. Na mesma Mouffetard, um dia, reencontrei e resgatei o maravilhoso sanduíche Kebab que nunca mais esqueci, pois era absurdamente saboroso e bem preparado. Em várias ocasiões, ao chegar a Paris, mesmo já estando morando no Brasil, saia do Aeroporto e pegava o 46 (ônibus normal da RATP que cruza a cidade) e descia perto da subida da “Mouffe” e, ainda com a mochila, parava naquele árabe só para matar a saudade do Kebab que preparava. Fazia isto, olhando através da pequena vidraça, a Praça de La Contrescarpe. O prazer da memória confirma Hemingway quando este diz “Se tens a sorte de teres vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida, ela estará com você, porque Paris é uma festa móvel”. Absoluta verdade...